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Água, produção e esperança
11.04.2008 | Água | Convivência com o Semi-Árido

Cisterna calçadão ajuda a transformar a vida de famílias da comunidade São Luiz, no município de Santana do Acaraú, no Ceará Na semana passada, a cisterna calçadão de 52 mil litros construída pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), na comunidade São Luiz, no município de Santana do Acaraú, no Ceará, sangrou.

As 17 famílias agricultoras que moram no local olham admiradas para a tecnologia até então desconhecida por todos. A cisterna, feita com placas de cimento tendo um calçadão de concreto acoplado para a captação da água da chuva, foi erguida em junho do ano passado.

“Ainda hoje ela está lá e é uma coisa incrível pra gente.Nunca ninguém aqui tinha ouvido falar em cisterna calçadão”, explica a líder comunitária Maria Valnice da Silva de Oliveira. A tecnologia, também desenvolvida por agricultores e agricultoras do Semi-Árido, tem como principal função armazenar a água que cai do céu e que serve para produzir alimentos e matar a sede dos animais nos períodos de estiagem.

Em São Luiz, a água da cisterna calçadão está sendo utilizada para aguar a horta comunitária construída pelo grupo de mulheres. “Ninguém tem idéia de como a gente se sente feliz em olhar a cisterna e saber que fomos beneficiadas”, comemora a agricultora.

A felicidade que Valnice relata é reflexo do trabalho desenvolvido pelas próprias famílias que, após viverem vários anos em condições desumanas, começaram a se organizar e buscar a implementação de ações que viessem transformar a dura realidade. “Quando eu cheguei na comunidade, há 4 anos, São Luiz não tinha nada. Não tinha nenhuma organização (...) Não tinha energia elétrica, não tinha água, não tinha nada (...) Foi aí que meu cunhado disse: ‘Valnice, vamos organizar São Luiz! Como é que a gente vai continuar morando aqui sem nada?’. Eu disse: ‘Tudo bem!’. Foi aí que a gente teve a idéia de fundar uma associação (...) Quando a gente fundou a Associação Comunitária de São Luiz, no dia 02 de março de 2004, tudo começou a andar”, detalha Valnice.

A primeira vitória da comunidade foi a conquista da água potável para beber e cozinhar, através da aquisição de 12 cisternas de 16 mil litros, no início de 2005, pelo Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), também da ASA. “Daí pra cá nunca mais a gente passou pela necessidade de ter que beber água poluída e barrenta. Todo o ano, elas [as cisternas] enchem e dá pra abastecer toda a comunidade”, informa a agricultora.

O segundo avanço foi a instalação da rede elétrica na comunidade. “Como mudou a nossa rotina de vida de quatro anos atrás para agora! E a gente tem a certeza que vai melhorar muito mais. Porque agora, esse ano, vai ser a nossa primeira experiência com a cisterna [calçadão] cheia. A gente vai se cansar menos na busca pela água e vai produzir mais alimentos”, acredita Valnice.

A horta, sustentada pela água da cisterna calçadão, fornece coentro, cebolinha, tomate, pimentão, alface, couve, beringela e abóbora, para todas as famílias de São Luiz. A produção excedente é vendida na feira e o dinheiro arrecadado serve para comprar mais sementes e utensílios para manutenção dos canteiros.

Outras tecnologias

A cisterna calçadão é uma das tecnologias de convivência com o Semi-Árido que vem sendo multiplicada na região pelo P1+2. Na fase inicial do Programa, chamada de projeto demonstrativo, e que contou com a parceria da Petrobras e da Fundação Banco do Brasil, foram construídas 78 cisternas calçadão nos 9 estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais.

Porém, existem ainda outras formas de captação de água de chuva para produção de alimentos no Semi-Árido e que foram adotadas pelo P1+2, como o tanque de pedra, a barragem subterrânea e o barreiro trincheira. Na fase demonstrativa, foram erguidos na região 04 tanques de pedra, 1 barreiro trincheira e 61 barragens subterrâneas.

Essas tecnologias, simples e de baixo custo, estão transformando a vida das famílias que, na maioria casos, sobreviviam apenas das ações assistencialistas desenvolvidas por alguns setores do poder público.

Investindo na mudança desse paradigma que tanto perdurou, e ainda perdura, na região, a ASA, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), dá continuidade ao Programa Uma Terra e Duas, através da implementação do projeto piloto. A nova proposta terá investimentos na ordem de R$ 15,5 milhões para a construção de 1.146 cisternas calçadão, 143 barragens subterrâneas e 208 tanques de pedra. As tecnologias vão beneficiar 3.369 famílias.

Fonte: Fábia Lopes, ASACom
 
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