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Cisterna de placas é melhor alternativa
16.06.2009 06:06:00 | Convivência com o Semi-Árido

As cisternas de placas e as barragens subterrâneas são apontadas como alternativas para a região

Fortaleza. As cisternas de placa, construções simples destinadas à captação e armazenamento de água da chuva, e as barragens subterrâneas são as alternativas mais indicadas ao abastecimento das populações dispersas do semi-árido nordestino. A constatação é de Felipe Pinheiro, coordenador Executivo da Articulação do Semi-árido (Asa Brasil), afirmando que existem dois programas envolvendo o uso de cisternas, sendo um para o consumo humano e outro, produção.

Mesmo onde a água parece abundar, como em perímetros irrigados, as cisternas de placa aparecem como única opção de água para o consumo humano, que já que a água dos canais não tem qualidade. O programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), fruto de mobilização social, agora, faz parte da política do governo, que atua nos nove estados nordestinos e Norte de Minas Gerais, construiu mais de 250 mil equipamentos, das quais, 35 mil estão no Ceará. Já o Uma Terra e Duas águas (P1+2) se destina à produção.

Os programas estão associados a outras tecnologias destinadas à produção no semi-árido. é o caso, por exemplo, das barragens subterrâneas que consistem no barramento de água tanto da chuva quanto no solo. O barramento é feito com lona ou outro material através de vala em rios não perenes ou cavando um poço dentro do próprio reservatório.

Felipe informa que 160 mil famílias não têm acesso à rede pública de água no Estado, estimando que, desse total, 60 mil já foram atendidas. No entanto, admite que há dificuldade ainda para o consumo.

ÊXODO DIMINUI

Educação conscientiza jovens

A garantia do semi-árido para as futuras gerações vai depender da relação que os jovens tenham, hoje, com a terra onde moram. O primeiro passo é a identificação e o reconhecimento desses jovens na sua comunidade, destaca Silma Magalhães, coordenadora do projeto Arte e Cultura na Reforma Agrária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O projeto trabalha com dança, teatro e música.

"Muitos jovens se alfabetizaram debaixo de árvores", conta, destacando o papel que a educação e a família têm no processo. No entanto, José Wilson de Sousa Gonçalves, Secretário de Política Agrícola da Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado do Ceará (Fetraece) lamenta que os governos reajam, timidamente, com políticas de incentivo à fixação do jovem ao campo.

Ainda prevalece a idéia de que o campo é o destino daqueles que não quiseram estudar. "Se você não estudar, vai para a roça". Depois que os jovens se reconhecem como atores sociais, são capazes de mudar a própria realidade e os seus destinos. "Com o estudo passam a compreender que a cidade não é aquilo que eles pensam e querem ficar na comunidade".

O Ceará possui sete assentamentos considerados pontos de cultura e neles, 18 grupos artísticos. O êxodo entre os jovens vem diminuindo, já que têm a compreensão de que o campo não é um lugar de atraso.

O grupo Muc'Arte de teatro, faz parte do assentamento Mucuim, localizado no município e Arneiroz, é um exemplo. Francisca Erislúcia Lopes da Silva, de 14 anos , faz a 8ª série do Ensino Fundamental, confirma que o contato com o grupo foi fundamental para aprender a valorizar a terra. "Quero continuar aqui e fazer faculdade", projeta.

Histórias de parentes que migraram são recorrentes. Francisca Erislúcia tem um tio que mora em São Paulo. O pai trabalha na agricultura e os quatro irmãos estudam. "Minha casa tem água encanada", diz Raimunda Gislayne Salviano Araújo, 18, que passou no vestibular para Administração de Empresas. "Não quero sair daqui de jeito nenhum".

PEQUENAS COMUNIDADES

Sisar leva água às torneiras

Arneiroz. Fazer almoço, lavar louça e roupas, limpar a casa. Se o serviço de dona-de-casa é cansativo e desgastante, pior quando é necessário carregar água de cacimbas, açudes ou esperar por carros-pipa. A dona-de-casa e agricultora, Maria Maviniê Araújo, 51 anos, viu sua vida mudar quando o Sistema de Saneamento Rural (Sisar) foi implantado em sua comunidade, Cachoeira de Fora, em Arneiroz, no Sertão dos Inhamuns; e, como outras pessoas ouvidas, não reclama por ter que pagar pelo serviço.

A alguns quilômetros dali, no assentamento Mucuim I, Raimundo Nonato Pereira de Sales, de 46 anos, que ocupa na comunidade o cargo de tesoureiro, é o responsável pelo Sisar há cinco meses. Segundo ele, desde 2001 as 55 famílias do assentamento têm água encanada. "O único esforço é pagar a conta mensal . Eu só preciso receber as contas, distribuir e cuidar urgentemente em caso de vazamento. Lutamos agora para mudar a captação do poço profundo para o açude Várzea da Raposa".

Na comunidade Trapiá, em Forquilha, onde há 159 ligações de água ativas, o Sisar funciona desde 2002. Ali, a chegada da água facilitou não apenas a vida das donas-de-casa, mas gerou empregos e renda. Há seis anos a associação de moradores local fundou uma cooperativa de beneficiamento de castanha. A produção fica em torno dos 500 quilos por dia e é absorvida por uma indústria instalada na região. "É a melhor coisa que poderia ter acontecido aqui", diz Liliane Oliveira, 19 anos, que ganha cerca da R$ 200,00 por mês trabalhando de segunda a sexta.

Paulo Roberto Brígido, administrador da Gerência de Saneamento Rural (Gesar) da Companhia de água e Esgotos do Ceará (Cagece), explica que o Sisar nasceu em 1996, da necessidade de comunidades rurais com déficit de abastecimento e problemas com doenças de veiculação hídrica.

O Sisar é uma federação de associações ligadas às oito unidades da Cagece no Interior. As comunidades se filiam e rateiam custos. A Cagece presta consultoria. Hoje são 530 sistemas no Ceará, pioneiro na forma de gestão de água.

FORA DOS PERíMETROS

Poços garantem a produção onde a água ainda não chega

Limoeiro do Norte. Estima-se que, atualmente, apenas na região do Jaguaribe-Apodi, em Limoeiro do Norte, exista uma área do mesmo tamanho do perímetro irrigado produzindo frutas e grãos apenas com água retirada de poços. "As pessoas viam os irrigantes prosperando e se perguntavam por que não poderiam produzir também", lembra o coordenador do Conselho de Administração do Jaguaribe-Apodi, Raimundo César dos Santos.

No fim dos anos 90, os agricultores decidiram partir para ação e cavar os primeiros poços. "A gente nunca imaginou que pudesse ter tanta água nesse chão seco", conta o agricultor da localidade de Tomé, Antônio da Silva Ferreira, que não tem saudade do tempo em que andava até três quilômetros para buscar água salobra. Era a mesma para tudo: beber, tomar banho, lavar roupa. Plantar feijão e milho, só com chuva. "Quando não tinha, era olhar para o céu e rezar". Hoje, nos 11 hectares da família são colhidos 20 toneladas de banana/mês. "Já teve gente trocando terreno aqui por bode. Deve estar arrependido", garante.

A cultura de sequeiro também é parte do passado de Raimundo Lopes, que cultiva mamão, pimentão e linhaça na pequena propriedade. A melhor coisa que a água lhe trouxe? "Os meus filhos de volta. Tinha três em São Paulo, fugindo da seca", responde de pronto.

Fonte: Diário do Nordeste (Assinatura)
 
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